Um chão de presas fáceis


Por: José Antonio Pereira 


Em 12 de dezembro de 2015, Fernando Fiorese participou da Semana Augusto dos Anjos, lá na antiga casa do poeta em Leopoldina - MG, onde falou-nos da poesia do Augusto. 

Foi ali que conheci pessoalmente o autor de Um chão de presas fáceis, nesta mesma noite este veio às minhas mãos. Romance interessantíssimo; é uma narrativo-caminhada pela BR-116 em seu trecho mineiro. Quem já percorreu o trecho sabe que os sotaques baianos e cariocas convivem e dialogam ao longo da estrada no falar dos mineiros da região, até isto brotou em mim durante a leitura, o que dá um sabor bastante original. No sentido norte-sul da velha Rio-Bahia o livro percorre as margens do asfalto e vai mostrando os silêncios de existências marginalizadas pela perversidade de uma secular concentração de renda e poder nas mãos alguns. Através destas vozes Fiorese desnuda, diante de nossos olhos, os ”Sertões Proibidos”. Expondo-nos, pela perspectiva destes viventes de beira-de-estrada, a dureza de uma vida de destino incerto, a fome, a resignada religiosidade que se apega nos objetos de cultos e nos santos, já que Deus esqueceu deste povo beira-de-estrada. Isto, de cara, já se vê nas palavras de Sabino lá em Pedra Azul: Deus é gordo feito latifúndio. Braços de arame farpado, dentes de eucalipto, estomago de carvoeira, intestino de braquiária...Lembro-me das palavras de Fiorese sobre a poesia de Augusto dos Anjos onde destaca o uso de partes do corpo humano como elemento importantíssimo na construção poética. A memória é incendiada por um fragmento de Versos Íntimos: "–O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!" Adiante leio Resenha acerca das origens da cidade de Itaobim. Isto me é caro, ali nasceu meu pai. John Trench Dairy, o valadarense que se mandou prá Boston, rumina em minha cabeça e sei lá por que, os separatistas da Nova Califórnia de Teófilo Otoni. Como não se apiedar da coitada da Betinha? E a musa da Mata Mineira? Com quem dei de cara em De Junta-Cangalha a Santana dos Arreados. A verdadeira história do acontecido no arraial de Nossa Senhora da Piedade na freguesia de São Sebastião da Leopoldina, onde o historiador parnasiano tem como depoente o negro Preá de Ana de Nagô, que ainda menino avistou em parte o ocorrido. Tudo aqui na minha vizinha Piacatuba. Gostei de percorrer esta estrada que é a rota de fuga de muita gente, por ela movimentam-se os mais variados tipos de almas mutiladas, ladrões, prostitutas, matadores a soldo, fazendeiros e muitos outras figuras que encontrei neste livro. Como já disse, meu pai nasceu lá em cima em Itaobim, eu aqui em baixo em Cataguases, a poucos quilômetros da margem direita de quem desce a Rio-Bahia. Até o meu Rio Pomba flerta com a estrada ao cruzar com ela lá prás bandas de Laranjal. Por estas e tantas outros, acabei tornando-me um leitor-cúmplice de “Um chão de presas fáceis”. Vivi e vivo trafegando por um pedaço desta estrada. 

Nota: Sou apenas um leitor. Não sou crítico. Estas anotações são coisas de leitor besta.

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